Por Thereza Rocha
23/11/2024
CTD da Porto Iracema das Artes estreia Pien, de Alexandre Américo e Pedro Vitor.
Esse texto faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.
“Um parangolé que virou casulo”: essa foi a primeira coisa que pensei quando a luz se abriu no palco do CUCA Mondubim em 24/10/24, por ocasião da apresentação de Pien (pronuncia-se Piên), parte da 3ª Bienal Criança, em Fortaleza. A peça de dança de 50min de duração resulta da colaboração entre a TORTA - Plataforma de Arte Expandida e o CTD Porto Iracema com a Bienal Internacional de Dança do Ceará, festival que sediou a estreia e mais 2 apresentações da obra em sua programação.
??No centro do palco, vemos um grande murundum feito de tecidos sobrepostos. Em volta, sentadas no chão, crianças uniformizadas formam uma enorme roda. Suas presenças deram-se provavelmente por um acordo de partes entre escolas municipais de Fortaleza e o festival. Olham atentamente o volume que permanece parado por um tempo preciso – um que desafeta a antecipação, sem tardar entretanto. De modo quase imperceptível, começa a se mover, oscilando muito lentamente em direções irregulares (de uma rota qualquer para qualquer outra) de tal sorte que não conseguimos divisar o que há ali por baixo. Parecem corpos. Humanos? Não sabemos ao certo porque a forma nunca se completa: ela afunda e enlarguece sem contudo moldar figura reconhecível.
É o próprio monte, feito das sobreposições e de poucos nós, que ao mover-se vai abrindo fendas temporárias. Eis que despontam um brilho aqui, um tecido-nuvem acolá, esferas coloridas pregadas umas às outras logo ali. Parece uma cabeça, mas não. O movimento é o de aparecer constantemente outra coisa da mesma coisa num transformar-se tão vagaroso quanto indistinto, quase como se tivéssemos paciência de observar a longuíssima abertura de um botão em flor. Esse funcionamento permanecerá durante todo o espetáculo: a forma sempre a sobrevir sem nunca chegar a um destino ou se completar. É assim que seres-coisas vão surgindo (supostamente) de sob os panos. Não há pressa. Assim, o tempo não se desdobra adiante, mas redobra para dentro numa espécie de involução; é um tempo que não passa, dura. Gostaria de chamar o movimento e o tempo nesta dança com o mesmo nome: resdobramento – um que desdobra de ré, avança retroagindo. Uma volição involutiva.
Talvez tenha passado por aí, a preparação feita pelos coreógrafos-encenadores Alexandre Américo e Pedro Vitor (Natal/RN) com as pessoas que dançam a peça e é impressionante o resultado. Não é nada fácil chegar a uma tal composição com artistas quase concludentes de um Curso Técnico em Dança, no caso, o CTD, da Escola Porto Iracema das Artes. Em circunstâncias como essa, o desejo desenfreado pelo fluxo rápido do deslocamento dançado das virtuoses de cada um ou cada uma é muitas vezes a bola da vez. Isabelle Maciel, Uandê, Anderson Fenty, Sérgio Gadelha, Venicius Oliveira, Victória Pozzan, Mateus Tavares e Thaíssa Bertoldo são os/as exímias intérpretes que compram a briga do i-movimento. O filósofo Alain Badiou, conversando com Friedrich Nietzsche, diria do espetáculo: “Este seria aliás um outro modo de abordar a ideia da dança negativamente. [...] A dança não é absolutamente a impulsão corporal liberada, a energia selvagem do corpo. Ao contrário, é a exibição corporal da desobediência a uma impulsão”.
Como a arquitetura é precisa: depois de o/as intépretes plenamente saídos do casulo não há supostos tecidos que os cobrissem largados pelo chão. Todos foram resdobrados pelo movimento corporal. (Des)cobrimos, então, nenhuma descoberta: debaixo dos panos não havia nada senão um jogo infinito de avesso do avesso do avesso, como diria Sampa, de Caetano. A composição não apela para nenhuma lógica boba do tipo borboleta-crisálida, com suas dicotomias fáceis: beleza-feiura, vida-morte, viço-secura, movimento-paragem, revelação-ocultação, cena-bastidor. Não à toa, imago (imagem) é outro nome para a linda borboleta: a resultante adulta (final) da transformação. Muito diferente, em Pien, o casulo, sem nenhuma perda, morte ou abandono, parangolizou.
Pelo dito, cabe agora, então, um reconhecido elogio à inteligência, ao traquejo e à manufatura de Edson Sombra, também dançarino, responsável pelas vestes-coisa. Se é uma dramaturgia da indumentária o que você deseja ver, ou seja, observar como o figurino constrói o sentido de uma peça de dança, assistindo Pien você vai encontrar. No caso, não se trata tão somente da caracterização de humanos dançantes, mas da narrativa física de uma desfiguração feita de roupa. Uma desfigur(in)ação, talvez. Na peça, a anatomia do corpo humano ficou louca e já não difere mais cabeça dos braços, bunda dos ombros, pernas de barriga. Sempre em movimento e sempre lentamente, o próprio peso diferenciado dos materiais e suas costuras formam e desformam (assim mesmo, no intransitivo). Não seria exagero sustentar que Sombra também coreografa a peça.
Alexandre Américo é artista com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção) e Pedro Vitor, PCD – TEA (Pessoa com Deficiência – Transtorno do Espectro Autista): assim ambos se apresentam no material de divulgação da obra, o mesmo que afirma ser a peça, endereçada às crianças atípicas ou neurodivergentes. Muito cuidado, aqui, talvez ainda não seja suficiente. Endereço, no caso, não é fim, é começo. Não se trata de uma composição coreográfica criada por adultos neurotípicos destinada a infanto/as neuroatípico/as. A neurodiversidade é (está no) princípio de (da) composição. Partilhamos como comunidade elenco-plateia provisória de uma obra cênica criada por autores neurodiversos, oportunidade ainda bastante rara na cena brasileira.
Longe dali, uma famosa rede de cinemas anuncia retumbante: “Prepare-se para uma nova experiência! A tecnologia oferece ao público uma experiência audiovisual sem precedentes, com sensações sincronizadas às do filme. As poltronas têm sistema eletrônico de movimentos, que permite simular quedas, trepidação e vibrações, além de aceleração e frenagem. Junto a isso, a sala possui instalações especiais nas paredes e assentos, que geram até 20 efeitos de luzes, água, vento, aromas, névoa e ainda outros recursos.” Para uma pessoa TEA, essa talvez seja a própria descrição de uma sucursal do inferno. (Será que somente para elas?) Nada mais avesso a Pien: “um compartilhamento visual-tátil-sonoro de natureza branda, sensível às questões neuroperceptivas de crianças dentro do espectro autista”, diz o release da peça. Um espetáculo gentil em tempos tão turbulentos.
A chave da gentileza é o tempo. Na dramaturgia da peça, ou seja, no tecido afetivo entre os planos de composição, não há lugar para arroubos, rupturas, sustos, trombadas ou desengates repentinos. Estalinhos, bombinhas, bomba cabeção, treme terra, fogos de artifício, rojão não acendem a fogueira desse coração. A neurodiversidade como princípio coreográfico rima com o compromisso poético da dupla de potiguares com uma severa, porém serena, diferença ético-política aos dramáticos efeitos da representação na dança. Nesse caso, cena não coincide necessariamente com espetacularidade, grandiosidade, extraordinariedade.
A iluminação é uma e a mesma: constante. Se há alguma variação, ela foi tão sutil que soou imperceptível para mim. Combina em gênero, número e grau com a criação de Tinoc, artista importante da música eletrônica de Natal/RN. A trilha sonora investiga as (poucas) variações do assim chamado ruído marrom, tradução literal do inglês (brown noise) que, na verdade, recebeu esse nome do sobrenome do cientista que o descreveu. O ruído marrom tem uma ênfase nos tons mais baixos (graves) dentre os que são audíveis ao ouvido humano. 20 anos de pesquisa atestam a sua importância para as pessoas TDAH como recurso para ajudar o cérebro a ajustar-se à concentração, silenciando o pensamento acelerado.
Tornou-se verdadeira febre nas mídias antissociais, originada da comunidade TDAH on-line, espalhando-se, então, generalizadamente. (À guisa de curiosidade, segundo a BBC, a hashtag #brownnoise tem 86,1 milhões de visualizações no TikTok, dados de 2022). O aumento explosivo de sua popularidade foi impulsionado em grande parte por seu potencial em reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar o foco e a qualidade do sono. Contraditória, como mídias sociais que se tornam antissociais podem ser, no comércio da atenção, a explosão é o som que a busca pelo sossego pode ter.
Em Pien, o som browniano ou ruído marrom soa constante, contínuo, quase tendente ao meditativo. Ele foi a base da pesquisa compositiva de Tinoc para a ambiência sonora criada especialmente para a peça. Completa, assim, o quadro geral de gentileza em que tudo sempre muda sem se fazer notar. Para quem acha que as crianças vão achar isso chato e facilmente se desconcentrar, é desconcertante testemunhar exatamente o contrário, e ao longo dos 50min de duração da peça (imperdível).
Perto do fim, os seres-coisa rolam pelo chão (sempre muito muito vagarosamente, lembremos) na direção das crianças. Elas serviriam de colo para seus amigos esquisitos mais recentes, não fosse a brincadeira do medo e da fuga que logo sobrevém. Ela espalha as crianças já de pé pelo espaço e, aí sim, as dispersa nos dois sentidos do termo. Talvez o espetáculo não espetacular tenha nos ensinado, sem qualquer didatismo barato, a sermos gentis com a diferença nos apresentando algo tão avesso à nossa expectativa: caprichosa, faminta, alarmada, impaciente, desatenta.
Neste contexto, para bem longe de Bíblias e Testamentos, poderíamos fabular uma filosofia que dissesse: no princípio não era o verbo, mas a diferença. Enquanto fim/finalidade, a diferença é ferramenta de identificação: algo ou alguém está na ponta final do dedo indicador. A diferença como origem não origina. Ela é um constante voltar-se da multiplicidade a si própria num movimento de resdobrar-se tal e qual um borbulhar. O tempo disso é duracional, não sucessivo. Caso, ainda assim, o desenhássemos com uma seta, ela avançaria concomitantemente para frente e para trás, abrindo o tempo como uma mina d’água que, enquanto tal, não para de aflorar; não para de resdobrar. Não sendo o tempo na peça cronológico-linear, mas de resdobramento, o princípio (ou a neurodiversidade) não está antes, mas no coração mesmo desta dança. Voltando ao release, lá se encontra: “A diferença é o coração (pien, nas línguas Tupi) de todas as coisas”. Só posso pensar que concordamos, a peça e eu (depois de assisti-la), com o poeta russo Maiakovski: Nos demais, / todo mundo sabe, / o coração tem moradia certa, / fica bem aqui no meio do peito, / mas comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração.